O despertador da Mafalda toca às 7:00 horas da manhã.
A essa hora já se ouve o barulho dos carros na rua.
A Mafalda mora num sexto andar num prédio da periferia lisboeta. É um piso pequeno mas dá para que ela e os seus dois filhos possam viver mais ou menos à vontade.
Enquanto a Mafalda toma um duche pensa no dia em que ela e o Duarte, o seu ex-marido, compraram o piso.
- Está muito bem situado- dizia o vendedor da imobiliária-. Mesmo que não seja cêntrico vocês terão todas as comodidades. Ainda mais agora, pois sabemos, que vai ser construída uma grande superfície aqui, mesmo ao lado, e se pensam ter filhos, isso é muito importante porque eles sempre estão a precisar de alguma coisa, não é?
Desta conversa até hoje, já passou tanto tempo... quase quinze anos, e ainda não há sinais do maldito centro comercial. Isso sim, a Câmara da Cidade achou um dia que o sitio perfeito para edificar o maior polígono industrial era ali, pertinho da sua rua, do seu prédio, do seu andar, da janela do seu quarto, da sua almofada, do seu tímpano direito que, desde as cinco da madrugada, era martirizado com aquele zumbido de carros, motas, carrinhas, camiões e portões a abrir e fechar.
A água quente começou a arrefecer quando ela ainda estava cheia de sabão ( Porque é que sempre tem que passar isto quando a pessoa está no duche, nua, indefesa...?)De roupão e toalha na cabeça preparou o café enquanto procurava o comprimido mágico, esse que a fazia capaz de afrontar o dia, de acordar os filhos, levá-los à escola, arrumar quartos, passar a ferro, falar com o empregado do banco sem perder a paciência, aturar as conversas sem fundo das vizinhas e olhar com certa esperança o dia de amanhã. - Se calhar amanhã- disse a funcionária- pode ser que amanha tenha alguma coisa para você. Já sabe que agora, com a crise, tudo está muito mal. Ainda por cima para uma pessoa com o seu perfil, mulher, 45 anos, sem curso académico, apenas com experiência no ramo da limpeza e de empregada de balcão, bem... mas não perca a ilusão, nunca se sabe, é possível que amanha tenha algo para você. Algum dia tem que ser... não acha?
- Algum dia a sua vida vai melhorar, de certeza absoluta, nenhum mal dura toda a vida e, além disso, pense nos seus filhos, não são uma alegria? A senhora tem muito pelo qual deve estar agradecida à vida. Tem uns filhos sãos e cheios de vida, que gostam muito de si e tem que lutar por eles e estar contente. Não deixe que os problemas a ultrapassem. Os comprimidos que lhe receitei o mês passado estão-lhe a fazer bem? Se sentir alguma coisa como tonturas pela manhã ou falta de apetite é importante que eu o saiba para mudar a medicação. E a sua vida sexual ? como é que vai? É também possível que os comprimidos lhe tirem a vontade de fazer amor com o seu parceiro, mas isso acaba passados dois ou três meses...Vai fazer três meses que a Mafalda está desempregada, três meses que tem dificuldade em pagar a hipoteca, agora até já o condomínio, três meses que oculta aos filhos o seu medo a não poder aguentar mais a casa.
A moradia que a Mafalda limpa às quintas-feiras das nove à uma fica no lado oposto da cidade. Foi uma recomendação de uma amiga que deixou o trabalho porque ficou grávida. É só temporal. Para não perder o salário em bilhetes de metro, a Mafalda faz o percurso a pé. Demora quase uma hora a chegar lá.
Para chegar ao posto de encarregada do Café Alentejano, a Mafalda demorou... muito tempo. Começou limpando o local, as mesas, as casas de banho e depois, pouco a pouco, foi ganhando a confiança do chefe e um dia de Agosto, com o Café Alentejano cheio de turistas espanhóis, a Mafalda teve que se pôr detrás do balcão a servir torradas e meias de leite. Aí começou a demonstrar que tinha jeito para se relacionar com os clientes... A Mafalda lembra-se disto enquanto limpa os vidros da Senhora Martins. Faz agora três meses que a porta do Café, do seu Café Alentejano , está fechada.
- Está fechado o talho e a mercearia também, meninos. Não pude comprar nem bifes nem pão nem nada. É uma vergonha, as pessoas já não gostam de trabalhar. Não eram ainda duas da tarde e já tinham fechado. Não acredito. Mas não se preocupem, a mamã faz num instante uma rica sopa de batata.
Sopa de batata, sopa de tomate, caldo verde... já quase que a Mafalda não tem imaginação para poupar sem que os filhos saibam o que se passa. Há quanto tempo o
frigorífico não tem fiambre? Nem sabe.
Algum dia a vida vai melhorar. Tem que ser. Sobretudo porque isto de estar desempregada dá muito, muito trabalho, e a Mafalda, bem a Mafalda, precisa mesmo de descansar.
O despertador da Mafalda toca às 7:00 horas da manhã.
A essa hora já se ouve o barulho dos carros na rua...
A.B.V. /11
mora / vive, sexto-andar / sexto piso,
filhos / hijos, Câmara / Ayuntamiento,
achou / pensó, / pertinho / cerquita, rua / calle,
janela / ventana, quarto / habitación, carrinha / furgoneta,
fechar / cerrar, quente / caliente, arrefecer / enfriar,
sabão / jabón, nua / desnuda, roupão / albornoz,
comprimido / pastilla, acordar / despertar,
passar a ferro / planchar,
empregado / empleado, empregado de balcão / camarero,
não acha? / ¿no le parece?, sãos / sanos,
cheios / llenos, de fazer amor / de hacer el amor,
quintas-feiras / jueves
(Primeira colaboração de uma estudante de
Português que se atreveu a compartir. Agora esperamos também o seu texto, no seu próprio idioma ou como entender. COMPARTELENDO, é um Blogue seu. Colocaremos o seu nome, ou apenas as abreviaturas como a amiga que enviou este primeiro texto. Pode escrever sobre tudo e todos. Não se preocupe com as ilustrações, nós encarregamo-nos disso)
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